Mariene de Castro

Mariene

 

Mariene de Castro - uma baiana trazendo a doçura de Oxum

para as águas da Barra da Tijuca

Texto: Sergio Lima Nascimento

Foto: Jorge Souto

           

 

           O chão treme ao trovoar dos tambores! O berimbau chama danças de mar, tilintares de chuva e um chacoalhar de folhas ao vento úmido, assobiando na mata, por entre as cachoeiras encantadas, para receber a nova Voz da Força Ancestral – Mariene de Castro! Difícil descrever a sensação que se toma de assalto, ao vislumbrar pela primeira vez essa menina/mãe de quatro doces rebentos ao adentrar o palco. É algo muito forte que palavras não são suficientes pra explicar.

            A primeira vez que ouvi falar em Mariene foi por Jojô, anjo carioca da rainha Dani, num dia de muita festa e alegria! A segunda vez veio com o aval da PhD mor do samba, que arrumou mais essa afilhada, madrinha Beth Carvalho, durante as gravações de seu premiado “Nosso samba tá na rua”. Conversando sobre a belíssima homenagem feita ao baiano Roque Ferreira por Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil, ela mandou na lata: “Você precisa é conhecer na raiz, o samba-de-roda de Mariene de Castro!” O convite, quase em tom de bronca se justifica pela escassez de divulgação do gênero mesmo em sua terra mãe, e o que dizer no resto do Brasil. E é Roque mesmo quem resume bem a situação, “Não se vê mais samba no carnaval da Bahia. Inventaram um negócio de axé-music. Misturaram a força religiosa dos candomblés com uma expressão norte-americana... Isso é o símbolo do colonialismo!” Pois é no samba-de-roda, na marujada, na chula, no ijexá, na ciranda e em muito mais que ela mostra sua arte. Portanto não esperem da baiana Mariene variações monossilábicas vogais ou aquela promiscuidade bucal do “beija aqui, beija ali, beija acolá”. Mariene é pé no chão e mãos nas cadeiras!

            Foi lá, no Recôncavo Baiano que o samba nasceu. Apesar de sempre associado ao Rio de Janeiro, por causa das Escolas de Samba, do morro e das inúmeras variações que derivou em terra carioca, foi na Bahia que tudo começou, mas ficou guardado por todo esse tempo como folclore. Se a primeira gravação com o nome samba foi “Pelo telefone” de Donga em 1916, a primeiríssima gravação da história do disco no Brasil foi “Isto é bom” em 1902, número 0001 pela Casa Edison (Zon-o-phone), levando a classificação de lundu, uma dança angolana, com acompanhamento somente de piano, e cantada pelo Bahiano. Afinal, virada do século, abolição recente... não poderia ser diferente a forma de apresentação! Jamais seria por batuques, época em que esses “costumes bárbaros” eram perseguidos e seus praticantes levados pra cadeia. E hoje 110 anos depois essa música é sucesso por Mariene de Castro na novela Lado a Lado da Rede Globo! Quem diria, a primeira gravação no Brasil é na origem um samba-de-roda!

            Como bem disse o compositor baiano Riachão, “O samba nasceu na Bahia, porque o Brasil nasceu na Bahia!” Com a queda da cultura do açúcar na virada do século na região, muitos baianos vieram pro Rio de Janeiro e formavam em casa da baiana Tia Ciata os primeiros passos do samba carioca. O samba foi então a bandeira de resistência a marginalização do negro após a abolição.

Viajantes portugueses no século 19 descrevem em Angola e no Congo festas com percussão, onde os participantes dançavam em círculo, sozinhos ou em pares, acompanhados por palmas. Os vários tipos de batuque de povos africanos distintos deram no Brasil não apenas no samba, mas no coco no nordeste e no jongo no sudeste, tendo como matriz suas celebrações religiosas. O encontro no Brasil de várias etnias em festas semelhantes uniu e irmanou ainda mais os afro-descendentes. E mesmo perseguido o samba nunca morreu, pela força da tradição! E o samba-de-roda permanece intacto até hoje, o que mereceu seu tombamento pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade!

Para que não confundam o samba-de-roda tradicional com as garrafas e sambundas dos anos 90, chamado na Bahia de pagode baiano, Roque Ferreira mais uma vez solta o verbo: “A divisão rítmica do pagode até chega a parecer com o samba, mas as letras são de uma mediocridade intencional” e a experiente cantora Claudete Macedo complementa: “A gente não fica satisfeito quando vê essa coisa de bundinha, garrafinha. O nosso samba é mais clássico, civilizado e respeitável”.

Mariene nasceu e viveu nos terreiros e festas e traz no sangue essa joia brasileira. Sua voz forte de contralto, ora suave, ora poderosa envolve, domina o palco. Não são apenas os anos de carreira iniciados em 1996, mas a força das suas canções que falam de um povo que leva a alma do Brasil nas costas por séculos. Ela optou por esse caminho quando a maioria da sua idade trilhava o sucesso fácil do pop. Aos poucos viu uma juventude se interessando e seu público aumentando. Sem pressa do sucesso, construiu seu caminho com sabedoria, “O tempo é um dos orixás mais lindos e precisa ser respeitado. Tudo acontece no momento certo”. Suas canções falam de uma Bahia que não se vê desde os tempos de Caribé e Pierre Verger, elegante e com sambadeiras de saia comprida. Esse é o segredo da emoção de seu canto, a “saudade” do que não se viveu, em cada verso lançado.

Seu começo como vocal de apoio a Timbalada em 1996, lhe rendeu uma turnê solo por 20 cidades francesas mostrando essa Bahia mais pura, ovacionada lá por público e crítica. Só que ao voltar, o que mandava na Bahia era o axé e o pagode baiano. Entretanto não desistiu, mantendo-se fiel a busca de compositores tradicionais. O tempo de relógio trouxe oito anos depois, em 2004 o Prêmio Braskem que permitiu o lançamento de seu CD “Abre Caminho”, reconhecido pelo Prêmio TIM como melhor disco regional do ano. No ano seguinte, mais uma vez na França, comandou a Lavagem da Igreja de Santa Madalena em Paris, inspirada na Lavagem do Bonfim. Em 2006 Beth Carvalho a convidou para seu CD/DVD “Canta o samba da Bahia”. Em 2009 lançou o CD/DVD “Santo de casa” onde logo na abertura descreve os tempos difíceis: “No meio do temporal ninguém é rei, mas eu sou”, gravado no Teatro Castro Alves, numa celebração a cultura popular baiana. Seu último CD “Tabaroinha” já é um estouro nas rádios, de onde saiu o tema da novela global. Mas a baiana agora acelera o tempo com um projeto recém gravado e ainda por lançar - um DVD em homenagem a mineira Clara Nunes, expoente do samba carioca que completaria 70 anos em 2012. “Um ser de luz” foi gravado em 9 de outubro no Centro Cultural Tom Jobim com participação de Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira e a Velha Guarda da Portela.

Mariene é agora a mais nova carioca do pedaço. Escolheu a Barra da Tijuca pra morar. Vem trazendo o verdadeiro axé para abençoar o bairro de “shopingues centeres” e condomínios de nome esquisito! Descobriu logo a queda d´água, o paisagismo e o manguezal no Città America onde foram feitas estas fotos, para mostrar que a Barra também pode ter jardins encantados!

E para quem mora em Barra Golden, frequenta o New York City Center e joga beach soccer, vá aprendendo o novo glossário pra traduzir e explicar as letras de Mariene para os gringos durante a Copa e as Olimpíadas:

“muié rendera” é “needle woman”;

“carroça” é “cart”;

“cumade” é “my lady”;

“comendo água” (enchendo a cara) é “get boozed up”;

“ninguém abre a roda” é “no one give a damn”;

“quarador” é “clothesline”;

“umbigada” é “belly strike”;

“quitute” é “tidbit”;

“embala eu” é “rock me” e...

“iabá” bem........iabá é iabá mesmo... em NY, em Madureira, no Gantois ou na Barroquinha!

Agô, Mariene!

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